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Júlia Rocha

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Como minha mente e meu coração aceitaram o debate da legalização do aborto

ECOA

14/11/2019 10h14

Uma angústia me acompanhava desde os tempos da faculdade de medicina. Era uma espécie de tabu sobre o qual eu não conseguia nem mesmo conversar. Sempre católica, eu não admitia sequer ouvir alguém argumentando sobre a legalização do aborto. Era tomada por pânico e uma profunda tristeza ao ver alguém defender o direito da mulher de decidir interromper uma gestação.

"Como alguém pode ser a favor disso?", pensava.

É estranhíssimo perceber que, dez anos depois, eu não consigo me reconhecer nesta pessoa que eu era. A mudança foi tamanha que eu decidi buscar na memória quais foram os caminhos que minha mente percorreu para hoje entender como importante e legítimo esse debate. E faço isso com profundo respeito aos divergentes posicionamentos que surgem quando debatemos este tema. Minha intenção aqui é compartilhar por onde eu caminhei em direção a um entendimento diferente. Dividir, principalmente com quem não pensa da mesma forma, como a minha angústia em relação ao aborto foi sendo provocada e repensada até que eu descobri que (BINGO!) eu não precisava "ser a favor do aborto" para defender que mulheres que decidem por realizá-lo não tenham que morrer ou serem presas por isso.

Quem me acompanha nas redes sociais ou já me viu palestrar sobre direitos sexuais e reprodutivos sabe que eu sou a "louca" do planejamento familiar. Diariamente eu me esforço para construir, dentro do sistema público de saúde, redes de profissionais capacitados para apoiar todas as mulheres na escolha e no uso do método anticoncepcional mais adequado a elas. Em parceria com gestores da Atenção Primária à Saúde de diversos municípios, tenho promovido oficinas de capacitação para inserção do DIU de Cobre para enfermeiros e médicos e tenho, na medida do meu alcance, tentado democratizar o acesso a informações cientificamente qualificadas sobre o tema.

Nas capacitações, reforço aos profissionais que TODA CONSULTA é espaço para planejamento familiar. Paciente veio porque estava gripado? Pergunte sobre o método que ele e a companheira estão usando para evitar uma gestação não planejada. Paciente veio com queixas dermatológicas? Pergunte sobre seu desejo de ter filhos, sobre quando pretende tê-los, sobre qual método anticoncepcional ela e o companheiro estão usando e sobre sua satisfação a respeito dele.

Minha insistência tem razão de existir. Uma gestação que chega de forma inesperada pode significar desestabilização emocional, financeira e familiar e pode prejudicar não só a mulher mas toda a família.

De certo, um país que garanta acesso ao planejamento familiar qualificado através de um sistema público de saúde fortalecido é parte do meu sonho de mundo ideal, mas não é parte da realidade de uma significativa parcela da população.

E mesmo nesta realidade dita ideal, os métodos contraceptivos falham e não me parece razoável condenar a mulher, DONA de seu corpo, a uma gestação que ela não planejou, não desejou e ainda se preocupou em evitar.

Ser a favor da descriminalização do aborto passa longe de ser incentivadora do aborto. Ao contrário, somos nós, mulheres feministas, militantes na luta por uma assistência digna e integral à saúde de todas as mulheres, que acolhemos suas dores e suas angústias diante de uma gestação não planejada e nos viramos para oferecer ajuda material, emocional e financeira para que elas possam seguir com a gravidez e tenham o mínimo de dignidade no pós-parto. Somos nós que, impedidas por lei de apoiar um aborto seguro, alertamos sobre os grandes riscos de um procedimento clandestino e pedimos que nos procurem ao final deste processo para sabermos se houve alguma intercorrência, se há algum sinal de perigo ou risco a sua vida. Somos nós que, preocupadas com a vida dessas mulheres e com as condições de seus outros filhos, pedimos encarecidamente para que voltem, afinal, sabemos que infecções e hemorragias podem fazê-la pagar com a vida por esta decisão.

Como médica que cuida de mulheres gestantes acompanhando-as cuidadosamente durante todo o pré-natal e puerpério, me sinto confortável em dizer: o aborto não deixou de ser infinitamente triste para mim. Sigo me compadecendo da dor dessas mulheres e sempre procurando construir uma realidade que as permita evitar ao máximo esta situação.

Sabe-se que, em países onde as mulheres podem decidir sobre a interrupção da gravidez de forma legal, o número de abortos cai progressivamente. Inclusive porque o acolhimento efetivo destas mulheres pelo sistema de saúde envolve medidas para que novas gestações indesejadas não ocorram.

É por isso que eu sigo defensora da legalização do aborto.

Quando eu me descobri gestante, mesmo não tendo planejado nada, fui tomada por imensa alegria. Eu tinha um emprego, um companheiro muito responsável e comprometido, uma família incrível, acesso ao sistema de saúde, maturidade, estrutura psíquica e apoio de inúmeras pessoas queridas para seguir. Não posso exigir que mulheres tão diversas pensem como eu penso e decidam como eu decidi. Não posso concordar que estas mulheres encontrem, ao final deste processo, a morte, a prisão ou a exposição e o julgamento público por uma decisão que envolve seus corpos e seu futuro.

Meu desejo é que cada vez menos mulheres precisem passar por isso e que todas que decidirem diferente de mim possam viver.

Sobre a autora

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

Sobre o blog

Um espaço para refletir sobre a importância da humanização do atendimento médico e sobre questões da vida em geral, afinal, a saúde vai muito além de diagnósticos e receituário

Júlia Rocha