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Herança invisível: o que recebemos da família, mas está fora dos testamento

ECOA

27/12/2019 04h00

Há sutilezas que, para serem vistas, requerem olhar dedicado. Como as heranças invisíveis que recebemos de nossas famílias. Quase não as enxergamos por que não nos voltamos a contemplá-las. Não são elas coisas, matéria, portanto não estão tão evidentes, mas basta recostar o corpo no sofá da sala, olhar em volta e permitir ser atravessado pela realidade para percebê-las todas. Nem tudo que somos é resultado da concretude do dinheiro e dos bens materiais que nos serviram a vida toda sem que para isso precisássemos realizar sequer um mínimo esforço. Nossa inteligência, nossa capacidade de equilibrar emoções, nosso gosto pela leitura, o tempo de atenção, de brincadeiras e de conversas boas que recebemos dos nossos pais, nosso senso de limpeza, higiene, organização e tudo mais que nos fez ser quem somos foram heranças invisíveis. Parece claro que trata-se de um enorme privilégio de famílias com vida financeira digna: pobres que lutem!

Eu comecei a escrever sobre isso por um motivo inusitado. Na última semana, o Ministério da Saúde determinou a proibição de profissionais não médicos realizarem a inserção de DIU (Dispositivos Intra-uterinos) em suas pacientes. Desde o dia 18 deste mês, enfermeiras e obstetrizes que receberam treinamento e já facilitavam o acesso de mulheres a este método contraceptivo nas unidades de saúde Brasil a fora foram obrigadas a parar.

Sem discutir aqui o mérito da decisão que diverge de normas de sistemas de saúde de países como Inglaterra, França e Holanda, onde enfermeiras e obstetrizes realizam o procedimento rotineiramente, e sem citar as evidências científicas que respaldam esta prática, descrevendo-a como segura e eficiente, vim dividir com vocês o que esta notícia me trouxe alimentando reflexões sobre a vida. Devaneios metade científicos, metade sabedoria de vó, sobre as bizarrices meritocráticas.

Passei os últimos dias a pensar nesses privilégios invisíveis passados de pai para filho de forma silenciosa e que colocam famílias inteiras em posição de enorme vantagem social, acentuando injustiças sem levantar qualquer suspeita sobre privilegiados. Pelo contrário, quem é julgado inferior e "culpado" é quem não os tem.

Mulheres pobres (e no Brasil, isso é como dizer: mulheres negras) raramente acessam um serviço qualificado de planejamento familiar. Quando muito, são orientadas por leigos a usarem pílulas. Rotineiramente, recebem informações erradas e, mesmo quando orientadas adequadamente por profissionais bem intencionados, não executam o que foi falado de forma exata pois, via de regra, não tiveram acesso a educação de qualidade e não possuem nível cultural para entender as complexidades que envolvem seus ciclos hormonais. Tragicamente, ficam expostas a um índice enorme de falha deste método.

Em unidades básicas de saúde, encontrar um profissional capacitado e disposto a abrir o acesso ao DIU sem fazer mil exigências sem qualquer respaldo científico para realizar o procedimento é como achar agulha no palheiro. No Brasil, menos de 2% das mulheres usam este método. Em países desenvolvidos, este número chega a 15%.

Quando eu me capacitei para inserir o DIU em minhas pacientes, a realidade da unidade onde eu trabalhava era a seguinte: por mês, cerca de 2 ou 3 mulheres eram agraciadas de forma quase milagrosa com este presente dos céus. Eram tantas exigências sem pé nem cabeça que para conseguir ser a escolhida para se submeter ao procedimento, era preciso, além de tudo, sorte. Depois que comecei a inserir os dispositivos, demos um salto para cerca de 30 inserções por mês. Havia uma fila de espera de mais de um mês pois as mulheres, depois que foram informadas de forma adequada, passaram a ter imenso interesse pelo método. Foram quase 300 mulheres beneficiadas. Nenhuma intercorrência relevante. Nenhuma! Neste período, capacitei médicas e enfermeiras para que também ampliassem o acesso em suas próprias equipes.

Ter acesso a planejamento familiar qualificado e eficiente protegeu estas mulheres do uso de hormônios sintéticos contidos nas pílulas e do risco de morrerem em abortos clandestinos por conta de uma gravidez não planejada. Mais silenciosamente, o planejamento familiar protegeu seus filhos de fazerem parte de uma família muito numerosa e consequentemente mais pobre, na qual a já escassa renda precisaria ser dividida para alimentar mais pessoas. Protegeu estas crianças de fazerem parte de uma família cujos pais precisariam trabalhar ainda mais, aceitando tarefas insalubres, sub-empregos, salários miseráveis em nome da sobrevivência.

Pena que isto está longe de ser a regra. A regra, aliás, é ouvir de profissionais de saúde que mulheres pobres ficam em casa tendo filhos, um atrás do outro, para receberem bolsa-família do governo. Meu ouvido chega a doer.

Poucos de nós já pensamos nisso,mas nascer de forma respeitosa, num parto adequado, sem violência é um privilégios dos grandes! Partos que respeitam a autonomia feminina, que amparam e acolhem a família de forma gentil, em locais preparados com recursos para aliviar a dor da mulher enquanto oferece a ela recursos humanos qualificados para permitir um nascimento tranquilo, com o menor número possível de intervenções são potentes ferramentas geradoras de puerpérios mais saudáveis. Mulheres que vivem experiências positivas de parto e que guardam lembranças boas deste momento estarão emocionalmente e fisicamente mais capazes de amamentar, de cuidar do bebê, de cuidar de si mesmas.

E o aleitamento materno, então? Natural, simples, barato, prático. Desavisados hão de pensar que é democrático, também. Porém, o que deveria ser direito é privilégio de quem pode dedicar meses e meses exclusivamente ao bebê que acabou de nascer. Em tempos de vínculos de trabalho precários, de desemprego e de perda diária de direitos trabalhistas, ninguém se dá esse luxo. Já me cansei de ver mulheres deixando seus filhos recém nascidos em casa com 15, 20 dias de vida para voltarem aos seus postos de trabalhos informais. As avós costumavam dar a eles mingau de fuba, leite de vaca, chás com açúcar.

Crianças amamentadas por suas mães, principalmente aquelas que mamam por mais de 2 anos, são estatisticamente mais inteligentes e, definitivamente, adoecem menos que as que não amamentaram. Terão, portanto, vantagens de aprendizado e na conquista de melhores postos de trabalho e salário. Crianças que passam mais tempo sob o cuidado dos pais nos primeiros dois anos de vida correm menos riscos de acidentes, recebem mais cuidados em saúde (incluindo vacinas), são mais estimuladas e se desenvolvem mais. Não precisamos de muito esforço para imaginar quem são essas crianças e qual a cor da pele delas.

Percebe? São heranças invisíveis. Vantagens e privilégios que pais e mães que estudaram por mais tempo e que puderam ocupar melhores postos de trabalho conseguem transmitir aos seus filhos. Quem diria que viveríamos em um país onde o básico pode ser chamado de vantagem, de privilégio, mas não pode ser chamado de direito?

Sobre a autora

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

Sobre o blog

Um espaço para refletir sobre a importância da humanização do atendimento médico e sobre questões da vida em geral, afinal, a saúde vai muito além de diagnósticos e receituário

Júlia Rocha