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Aos que não vejo deste lado da trincheira

ECOA

10/01/2020 04h00

Desde que a normalidade democrática foi suspensa por período indeterminado nestas bandas latino-americanas, e desde que medidas autoritárias, retrógradas, anticientíficas, moralistas e, por vezes, medievais, passaram a fazer parte do notíciário, venho observando os que estão atentos e fortes aqui deste lado da trincheira.

Por longos meses, olhei ao redor e senti falta de muitos conhecidos por aqui. Vez ou outra, pensava: "Fulano deve estar em uma parte distante da trincheira, batalhando em outras frentes e, por isso, meu olhar não o alcança".

A esperança é a última abestalhada que resolve cair morta… Como pode ser tão besta esta esperança?! Imaginava eu que artistas, professores, apresentadores de TV, escritores, jornalistas que eu sempre avistava por estas bandas a reafirmar a importância da educação, do método científico, da participação popular nas decisões que determinavam o rumo do país, fossem eles de direita, de esquerda, de centro, anarquistas, budistas, passistas, bateristas, estariam aqui se colocando como defensores da democracia, das lutas populares, e por aí a fora… Inocente! Estou me sentindo uma adolescente de 15 anos acreditando nessa pataquada..

É óbvio que não esperava trombar com todo mundo. Moro aqui nesta trincheira há uns seis anos. Desde julho de 2013, eu acho. Não escolhi morar aqui. Eu vim por que era a única que me cabia. em outros cantos, até havia espaço para o meu corpo, mas para entrar, meus ideais e meus maiores amores precisariam ficar de fora. Então, vim parar nesta.

Qual foi minha surpresa ao olhar para o muro que divide esse lado do lado de lá e enxergar vários dos que eu esperava que estivessem aqui se equilibrando da corda bamba da neutralidade. Que tristeza. De vez em quando aparece um repórter e pergunta para um deles: "Você não fala de política, não fala sobre os seus posicionamentos. Por quê?" Balançando e tentando se segurar com dificuldade, eles respondem que querem que a arte, a mensagem, as ideias deles cheguem a todas e a todos e não só a quem concorda politicamente com eles.

Bonito? Bonito! Chique? Chique! Confesso que no começo eu tinha inveja. Sou cantora e compositora. Sei como é dfícil pagar os boletos nesse país. Eu achava chiquérrimo não dizer nada. Não precisar tomar partido. Porém, há tempos, já não acho mais. E a razão é simples: é fácil pagar de neutro quando não é o seu primo, o seu irmão, a sua filha que está na mira do fuzil.

A lista negra, ou melhor, a lista branca dos que se posicionam em cima do muro (sim, porque em 2020 "em cima do muro" também é um posicionamento, "um lado") tem jornalista, tem apresentador, tem cantor, tem chef de cozinha, tem ator, tem de tudo.

Longe de mim achar que o meu jeito de pensar é o certo, é parâmetro ou deva ser único. Acho isso de uma pobreza imensurável. Eu prezo pela diversidade de pensamentos, pela diversidade de olhares. E penso que é isso que está em jogo. Há muito tempo não se trata de direita e esquerda. O momento histórico é de intensificação de crises: ambiental, social, econômica, política. De um lado, há quem decidiu avançar contra a vida e exercer da forma mais cruel possível o biopoder, decidindo quem vive e quem morre. Do outro, há a direita, a esquerda, o centro, e todo o espectro político que presa pela democracia, pela vida, pelos direitos humanos.

Quando alguém anuncia ali do alto do muro que prefere estar ali para que a sua mensagem chegue aos dois lados, a primeira reflexão que me vem é: quem ouvirá se não sobrar ninguém? Para ouvir música, frequentar show, museus, escolas, universidades, para assistir programas de culinária, se inspirar e ir para a cozinha cuidar da própria alimentação, para ler jornal, escutar rádio ou ser audiência na TV, precisamos, antes de qualquer coisa, estar vivos.

Já tive inveja e achei elegante os que falam de cima do muro. Já quis estar lá, fazendo muitos shows, aparecendo em muitos programas de televisão, famosa na internet. Hoje não tenho mais essa vontade. Hoje eu sei que o que me separa daquelas pessoas é que os meus estão no alvo. A bala está na agulha. A arma está engatilhada contra os que eu chamo de amigos, primos, irmãos, amor, filha. Eu não posso estar ali.

Sigo entrincheirada. Há de haver outro amanhecer.

Sobre a autora

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

Sobre o blog

Um espaço para refletir sobre a importância da humanização do atendimento médico e sobre questões da vida em geral, afinal, a saúde vai muito além de diagnósticos e receituário

Júlia Rocha