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Feminista, eu? Uma mulher dona do seu corpo é a revolução que precisamos

ECOA

31/01/2020 08h39

Nos últimos dias fui atropelada por duas reportagens. Uma descrevia o calvário da modelo Mariana Ferrer contra o homem que a dopou e a estuprou dentro de uma boate em Florianópolis. A outra ensinava mulheres a reconhecer abusos cometidos dentro de consultórios médicos, por profissionais que deveriam zelar pela saúde delas.

É tarefa difícil manter a sanidade mental em meio a tantas violações. Até onde minha vista alcança, não consigo enxergar o dia em que seremos simplesmente donas do nosso corpo.

Muitas de nós já normalizamos absurdos. Justificamos o injustificável e reforçamos, inclusive, as maldades perpetradas contra outras mulheres. No caso de Mariana, revirando a internet, me deparei com as mais terríveis justificativas. Homens e MULHERES dizendo que não foi tão estupro assim, que o criminoso não era tão mau assim, que ela não era tão "santa" assim. Como se o comportamento de uma mulher fosse explicação razoável para a violência sexual!

Das duas histórias, vivi o mesmo sentimento incômodo e angustiante que todas as mulheres sabem exatamente como é: não somos donas dos nossos corpos. Somos o depósito dos desejos alheios. Do médico que acha normal colocar a boca no seio de uma paciente ou tocá-la de forma absolutamente inadequada e fora de propósitos para a realização do exame físico, ao playboy que se sente seguro e autorizado a dopar uma jovem e estuprá-la dentro de um bar.

Cada cidade brasileira tem a sua própria fábrica de babacas. Homens machistas, criminosos, formados por este sistema que além de nos violentar, nos coloca como responsáveis pela educação, pela punição e pela regeneração desse tipo de criminoso..

Não é nossa responsabilidade brigar anos a fio para que criminosos sejam punidos. Se o estado brasileiro e seu sistema de Justiça não estão brigando com afinco para colocar estes estupradores na cadeia, algo de muito errado está posto.

Não somos nós, sangrando, nuas, destruídas, machucadas que devemos gritar por Justiça! E por mais cruel e injusto que seja, é exatamente isto que está acontecendo. Nos movimentamos entre nós, voltamos a falar dos abusos, trazemos os casos novamente ao debate, questionamos os que protegem o estuprador, questionamos as entidades de classe e a polícia, lutamos para que seja preso o médico que abusava de suas pacientes há décadas, criamos hashtags, campanhas, espalhamos fotos… e aí? Vai ser assim?

A consciência da luta feminista chega tarde, muitas vezes. Muitas conhecemos o feminismo pela dor de termos sido vítimas antes mesmo de saber que era importante brigar por autonomia e por direitos. A violência avança e não poupa nenhuma de nós. Casadas, grávidas, mães, solteiras, estudantes, profissionais bem sucedidas, pobres, brancas, pretas, pardas, indígenas, feministas ou não.

A consciência de que estamos vulneráveis por sermos quem somos e vivermos num país que permite, tolera, aceita e até aplaude quem nos violenta é um primeiro e importante passo.

Não nos esqueçamos pelo caminho. Vamos de mãos dadas. Marianas, Dalvas, Cleusas, Marias. Que a consciência do ser mulher, o feminismo e a luta por direitos chegue antes que a violência para todas nós.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre a autora

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

Sobre o blog

Um espaço para refletir sobre a importância da humanização do atendimento médico e sobre questões da vida em geral, afinal, a saúde vai muito além de diagnósticos e receituário

Júlia Rocha