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Quem transa e quem goza no Brasil de Damares e Bolsonaro?

ECOA

07/02/2020 11h32

Há que se levar a vida com alguma dose de humor para não sucumbir ao ódio destes tempos, mas esse texto será dedicado a um assunto sério. Sexo. Sim, vuco-vuco. Um amorzinho de leve. Uma fugidinha no meio da tarde pra namorar no banco de trás do carro no escurinho do estacionamento. Uma rapidinha no banheiro com o seu arroba. Ai que delícia! Tem assunto mais sério que esse?

Subiu um fogo aqui!

Segurem vossas ondas de calor e desejo, caras leitoras e leitores e leiam este texto cheio de pecado e desejo até o fim.

Já parou pra pensar em quantas vezes discutimos temáticas relacionadas ao nosso assanhamento, nossa libido, nossa sexualidade de forma pública e inspirados por ações deste governo? É sobre isso que a gente precisa conversar. Damares, Bolsonaro e outros deles estão usando o poder político para controlar corpos, desejos e subjetividades. Parece engraçado, mas só parece. Esta é uma receita velha de governos autoritários, e a intenção não é só causar polêmica ou fazer cortina de fumaça. É decidir quem vive e quem morre.

Esta semana, Jair disse que pessoas com HIV são dispendiosas para todos. Suas falas sobre os pacientes que recebem tratamento para HIV e AIDS na rede pública são sempre controversas. Parece que ele pensa que não se pode punir os "brasileiros de bem", que, neste caso, são aqueles que não se infectaram com HIV, fazendo com que eles paguem com seus impostos o tratamento de pessoas que se infectaram por serem promíscuas ou principalmente por serem homossexuais.

Observe. Seu Jair nunca falou que deveríamos deixar de prestar assistência aos diabéticos que não seguem a dieta, que decidiram que vão seguir comendo doces, hambúrgueres, pizzas, macarrão ou que decidiram não usar os remédios corretamente. Seu Jair nunca disse para que deixássemos de atender os pacientes hipertensos que comem churrasco salgado no final de semana, regado a muita cerveja. Seu Jair não está preocupado com o custo do tratamento das pessoas com HIV e AIDS para o bolso do """cidadão de bem""". Se assim fosse, ele também diria que os pacientes que não se implicam em seus tratamentos deveriam bancá-los. Jair quer mais. Quer controlar o sexo. Quer controlar o corpo. Jair quer exercer BIOPODER. Michel Foucault mandou um abraço!

Enfraquecendo políticas públicas que garantem cuidado a saúde de um grupo de pessoas, o governante quer matar. E ele quer matar o hipertenso? O diabético? O obeso? Não. Aqui, quem merece morrer são os gays, os ditos "promíscuos", as mulheres "de vida fácil" ou as mulheres "livres".

Quem mandou transar? Quem mandou não ser casada, monogâmica, submissa ao marido? (Como se esta condição protegesse alguém de se infectar). Quem mandou ser gay? Quem mandou pular Carnaval? Quem mandou transar na adolescência? Quem mandou exercer autonomia sobre o próprio corpo? Pegou doença por que quis. Agora banque seu tratamento.

Agora, volte algumas casas no jogo de tabuleiro dos poderosos e lembre-se:

1- Proibição da inserção de DIU por enfermeiros dificultando o acesso das mulheres a anticoncepcionais eficientes

2- Congelamento dos investimentos em saúde e educação

3- Sucateamento das políticas que levavam educação sexual para as escolas. Mais gestações em adolescentes (pobres) e infecções sexualmente transmissíveis.

Resultado: perpetuação de ciclos de pobreza, meninas jovens grávidas, abandonando escola, cuidando sozinhas de seus filhos, sujeitando-se a qualquer subemprego para sobreviver. Some-se à isso as incontáveis perdas de direitos trabalhistas, a desigualdade… É tudo amarradinho, meus amores. Não se trata somente de falso-moralismo. Damares e Bolsonaro, na verdade, não querem só que a gente pare de GOZAR! Eles querem que a gente morra.

Necropolítica que chama… mas isso é assunto pra outra coluna.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre a autora

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

Sobre o blog

Um espaço para refletir sobre a importância da humanização do atendimento médico e sobre questões da vida em geral, afinal, a saúde vai muito além de diagnósticos e receituário

Júlia Rocha