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Sífilis: mesmo que você nunca tenha sentido nada, o melhor é se testar

ECOA

06/03/2020 11h57

Desde que passou a ser uma doença de notificação obrigatória, em 2010, ou seja, desde que a comunicação de cada novo caso passou a ser uma obrigação rotineira do profissional que fez o diagnóstico, o número de casos de sífilis não parou de crescer no Brasil. E isso se repete em muitos outros países. De crianças infectadas dentro da barriga da mãe a mulheres infectadas por seus parceiros, a doença se fez democrática.

Uma infecção sexualmente transmissível que pode passar despercebida por décadas até que um estrago maior esteja instalado. Sífilis é isso. Sua evolução acontece em fases, e, principalmente na mulher as primeiras manifestações podem passar despercebidas ou podem ser negligenciadas até por profissionais da saúde com um olhar menos treinado ou menos atento a estes sintomas.

O Treponema, agente causador da infecção, é transmitido por vias sexuais e pode demorar de 10 dias até 3 meses para provocar os primeiros sintomas. A depender do comportamento sexual da pessoa infectada, isso é tempo suficiente para espalhar a bactéria sem nem mesmo ter se dado conta da própria condição.

Além disso, a ferida que surge no local da entrada da bactéria (boca, região perianal, pênis, vulva, canal vaginal) não dói e se fecha sozinha. Ou seja, após gerar grande preocupação para a pessoa, vai-se embora. O paciente se sente aliviado, não procura ajuda e segue infectando outras pessoas. Isso sem falar nas lesões que aparecem em locais onde não são vistas, principalmente em mulheres. Dentro do canal vaginal, só por um golpe de sorte é que elas serão percebidas. Isso, por que, por algum outro motivo a mulher precisaria passar por exame ginecológico neste período curto em que a ferida estivesse ativa.

Muitas dessas peculiaridades da doença ajudam a explicar parte de seu crescimento, mas não a totalidade. A doença vem crescendo de forma significativa na população mais jovem do país o que torna a comunicação com este público uma estratégia imprescindível para o controle da doença. Seria valoroso que pudéssemos informar os jovens de forma intensiva nos locais onde eles se concentram. Nas escolas, por exemplo. Mas Educação Sexual nas não parece ser uma prioridade.

Ainda hoje, a sífilis, principalmente em seus estágios mais avançados, é uma doença de pessoas pobres. É óbvio que há as exceções a esta regra, mas as estatísticas evidenciam isso. Quem mais sofre são pessoas com acesso ruim aos serviços de saúde e educação, com nível cultural baixo. Isso explica o fato de uma doença de evolução lenta, com tratamento eficiente e barato se espalhar de forma tão intensa e semear sequelas graves, principalmente entre quem está socialmente vulnerável.

Se os primeiros sintomas somem sem tratamento e a pessoa infectada se despreocupa por que não sente nada que a incomode, o avançar da doença pode ser catastrófico. Com décadas de atraso no diagnóstico, muitas vezes ocorre desenvolvimento de lesões neurológicas e cardíacas que podem deteriorar a funcionalidade do sujeito e trazer prejuízos ao paciente, à família e à sociedade, já que o custo do tratamento, que antes era de poucos reais passa a ser muito maior.

As características da sífilis e de sua evolução deveriam ser suficientes para que os profissionais de saúde incentivassem seus pacientes a realizarem a testagem e a se protegerem com preservativo sempre. Não é o que ocorre. É comum que o diagnóstico seja feito já com inúmeros danos estabelecidos. Sem falar que, na presença da sífilis, a pessoa infectada fica mais vulnerável inclusive à adquirir outras infecções, como o HIV, por exemplo

Há uma preocupação especial com a testagem periódica de mulheres gestantes já que a transmissão para o bebê pode acarretar sequelas graves. Aborto, parto prematuro e o adoecimento do bebê recém nascido são algumas delas.

Não se pode brincar com a sífilis. Se você já se expôs em uma relação sexual desprotegida, procure uma unidade de saúde e faça o teste. Se for diagnosticado, comunique suas parcerias sexuais. Todos e todas devem receber tratamento e acompanhamento com profissional capacitado para isto.

Sobre a autora

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

Sobre o blog

Um espaço para refletir sobre a importância da humanização do atendimento médico e sobre questões da vida em geral, afinal, a saúde vai muito além de diagnósticos e receituário

Júlia Rocha