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O avesso do caos: Quando tudo passar, voltaremos a ser quem éramos?

ECOA

23/03/2020 04h00

O momento atual é uma esquina da história. Quem procura na memória não encontra precedentes para o que vivemos nas últimas semanas ou meses. A overdose de informações, a intensa exposição do tema no rádio, na TV e na internet mudaram a nossa capacidade de perceber e de intuir sobre a realidade. Olhamos para os números mas não enxergamos o que há para além deles. Cinco mortos, seis, sete, oito. Se fossem dois, três ou trinta estaríamos igualmente alarmados. Os últimos dias levaram grande parte da nossa racionalidade.

Atualizamos a situação com olhos fixos nas múltiplas telas. Repetimos rituais de limpeza e de busca por fontes seguras de notícias. Sentimos saudade dos pais e avós que estão abrigados no bairro ao lado. Visitamos ressabiados o mercado do bairro cuidando para não encostar desnecessariamente em nada. Convenhamos, é impossível sair mentalmente ileso do caos global instalado e da vivência tão intensa e absoluta do que mais nos angustia em dias como estes: a INCERTEZA.

Não estamos certos de que os cuidados que estamos tomando sejam suficientes. Saímos rapidamente de casa para reabastecer a geladeira e ao voltarmos somos inevitavelmente tomados pelo medo de expor nossos familiares a uma possível contaminação. Nos xingamos uns aos outros por atitudes aparentemente inofensivas como esbarrar a roupa que foi na rua no móvel da entrada da casa. Questionamos internamente os protocolos sugeridos pelas entidades médicas, pelos gestores públicos e, aí, lavar as mãos com água e sabão vira usar álcool gel por duas ou três vezes, tomar banho, colocar a roupa suja cuidadosamente na máquina, lavá-la com água bem quente e muito sabão.

Estourando a bolha de sabão e álcool gel da classe média, avistamos ao longe, no alto dos morros nossos irmãos mais vulneráveis.Descobrimos que para metade da população do país, ficar em casa, ter acesso à água limpa e receber notícias de fonte relativamente segura já é um luxo sem tamanho.

Somos esta nação. Somos este grupo que se identifica de forma única como povo brasileiro, mas, em vez de tentarmos sobreviver de forma coesa, nos tornamos esta aberração que se previne usando as evidências científicas pela metade. No asfalto, milhões de seres humanos confinados, escondidos atrás de barricadas de antissépticos. Na favela, milhões de seres humanos pobres, em moradias precárias, convivendo com famílias numerosas, em barracos pequenos, mal ventilados, sem água limpa ou saneamento básico.

São estes pobres jogados à própria sorte, que estão nos vendendo álcool nas farmácias, abastecendo nossos carros nos postos de gasolina, entregando nossas pizzas no nosso confinamento. Ou seja, meu amor, ou nos protegemos como grupo, salvando primeiro as pessoas e depois a economia, ou estaremos todos em risco.

A conta da desigualdade vai chegar também aos condomínios. Os capitães da meritocracia, que acham que negros e negras, descendentes de africanos escravizados por 300 anos no Brasil, moram no alto dos morros e vivem uma vida precarizada por que não se esforçaram o suficiente ou por que escolheram estes lugares para reduzirem seus custos, também receberão seus boletos.

Quis a natureza e a evolução da espécie que o vírus se espalhasse democraticamente. Mesmo sem conhecer pessoalmente seus hospedeiros é possível intuir quem está mais apto a sobreviver a esta infecção. De um lado, temos um Brasil que vai ao médico sempre que precisa, que come bem, que tem lazer, que trabalha pouco, que se exercita, que viaja para a Europa, que pode trabalhar em casa. Do outro, temos um Brasil que trabalha muito, em ambientes insalubres, que enfrenta transporte público precário, que come mal. O estrago é maior quanto maior a vulnerabilidade física de quem se infecta. Seguimos irracionais, contabilizando cada novo caso, mesmo sabendo que os números oficiais, há muito, não são mais confiáveis.

O planeta agradece com ar e água mais limpos a desaceleração global. Estamos em pleno trabalho de parto. Como não poderia deixar de ser, parto é doloroso, difícil e, por vezes, longo. Se durar pouco, esse processo pode não gerar reflexão suficiente. Se durar muito, os estragos podem gerar o nascimento de um mundo fragilizado, mas se durar tempo suficiente para reflexão e mudança interior, o planeta pode parir um mundo novo, saudável, melhor e mais justo.

Não se iludam. Não depende de cada um de nós. Deixemos o individualismo infantil no passado. É hora de organização, solidariedade e senso de coletividade. É hora de parirmos sistemas de saúde públicos fortes, eficientes. É hora de respeitar direitos humanos para todos. É hora de parirmos sistemas públicos de educação capazes de formar cidadão críticos, criativos e conscientes. É hora de reduzirmos produção e consumo, e distribuir de forma igualitária e justa as riquezas deste planeta.

Quem fará isso? Prefiro a resposta de Assata Shakur:

"Ninguém no mundo, ninguém na história, nunca conseguiu a liberdade apelando para o senso moral de seu opressor."

Pretas e pretos, nações indígenas, trabalhadores, não esperemos muito do que não vier de nós.

Sobre a autora

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

Sobre o blog

Um espaço para refletir sobre a importância da humanização do atendimento médico e sobre questões da vida em geral, afinal, a saúde vai muito além de diagnósticos e receituário

Júlia Rocha